segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Gil Vicente, Paço dos Negros e o nosso Furunando.

Ainda Henrique Leonor Pina: «- Naquela altura [1510] foi quando El-rei mandou fazer Paço novo junto à ribeira de Muge, para repousa nas caçadas na coutada real. Aquele a que chamam Paço dos Negros. Muito do trabalho foi aí feito por gentes que vieram de África. Ao que se dizia, eram escravos guinéus, vindos do reino do Benim. Destinavam-se, principalmente à arroteias dos pauis das ribeiras de Muge e da Atela .../... Os seus descendentes ainda cá estão. Viviam em casa de pau a pique, com paredes de caniços tapadas de barro e telhados de espadana e junco.»


Entre 1525 e 1527 Gil Vicente permaneceu grande parte do seu tempo em Almeirim, devido a febres. Em a Nau de Amores, a tragicomédia com que, em 1527, se recebeu em Lisboa a nova rainha Dona Catarina de Áustria (rainha que com o neto, D. Sebastião, tanto viria a frequentar o paço da Ribeira de Muge), Furunando invoca ser fidalgo, mais até que outros, por ser um dos quarenta filhos do Rei do Benim*:
«Se boso firalga he aqui
a mi firalgo também
fio sae de rey Beni
de quarenta que elle tem
a masa firalgo he a mi.»

* em Paul Teyssier, la langue de Gil Vicente.