domingo, 7 de dezembro de 2014

Um concerto telúrico e uma Homenagem.

Um grande concerto que aconteceu ontem na matriz de Almeirim. As Gentes de Almeirim, as Cantadeiras do Vale do Neiva, e o Rancho de S. Mamede de Infesta. Foi um concerto telúrico. Apesar de gravado apenas com o telemóvel, quero partilhar esta minha homenagem ao Cante Alentejano, no Rancho Etnográfico os Camponeses de Pias que esteve presente.



Clique para ouvir:


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Burros da Ribeira de Muge - um retrato social

Chegou o livro que, falando de jumentos num tom ora sério ora irónico, brincalhão por vezes, mas nem por isso deixa de ser um fiel retrato social da vida na Ribeira de Muge. 

E porque não no país? 

domingo, 23 de novembro de 2014

Sessão evocativa

Sem dinheiros mas com muito trabalho e estudo se vai revelando e construindo a História de uma localidade: Paço dos Negros.




quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Burros da Ribeira de Muge

Vai chegar o novo livro que conta uma nova visão da realidade da vida na Ribeira de Muge.

Como os anteriores, não vai estar à venda. Quem o quiser, não será um livro de culto, mas é certamente um livro de colecção, terá de o encomendar.
Custo 5 euros.

Capa do livro

São cerca de 30 histórias, contadas por quem as fruiu, ou revividas por quem delas soube.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

História de Paço dos Negros – O malfadado Erro original

Sobre o Paço da Ribeira de Muge abateu-se nos últimos 170 anos, um muro de silêncio. Silêncio e esquecimento que foram os melhores aliados de toda a depredação de que continua a ser vítima, tanto de particulares como de entidades que têm o dever de o proteger e valorizar. Nestas incluindo aqueles que se dizem agentes de cultura.

Baseado em preconceitos, que não em documentos, se construíram ideias desvalorativas e erradas, propícias a todos os desmandos, logo a começar na data primordial.

Mostrando como se deu esse “pecado original”, transcrevo um curto excerto de uma longa Carta de Quitação, de 1517, em que se dá Diogo Rodrigues, almoxarife, por quite e livre pela boa conta que deu de todas as coisas que recebeu para a construção do Paço da Ribeira de Muge:
«Dom Manuel, etc. a quantos esta nossa carta virem fazemos saber que nós mandámos tomar conta a Diogo Rodrigues, nosso escudeiro, almoxarife dos nossos Paços da Ribeira de Muja, de todo o dinheiro que recebeu, e coisas que os anos passados de 511, 512, 513, 514, e despendeu para despesas das obras deles, e achou-se por bem da dita conta receber em dinheiro os quatro anos 3.343.805 reais, das pessoas abaixo …»
Ch D. Manuel, Liv 9, f . 26v.


Carta supra que ao ser copiada para a Leitura Nova, Livro 6, Místicos, 147,

foi omitido o ano de 1511:

 Braamcamp Freire, entretanto, no Arquivo Histórico Português, 1903, transcreve da Leitura Nova e faz o seu juízo sobre a aparente contradição nas datas, “512, 513, 514”, acrescentando (sic) a quatro anos.
Frazão de Vasconcelos, por sua vez, publica em 1926, o muito divulgado «O Paço dos Negros e seus almoxarifes». Recorreu aos estudos de Braamcamp Freire. Logo, manteve o erro.

Encontrando nós documentos que atestam o início da construção do Paço em 03 de Maio de 1511, seja a própria Carta- Escritura, bem como documentos de afectação de verbas logo nesse ano, procurámos o documento original, Ch D. Manuel, Liv 9, f . 26v. Neste, sob um borrão, é notória a inscrição do ano de 1511:
Sob este pequeno borrão caído em cima de 511 (dxi), nada que as modernas técnicas do Photoshop não consigam ultrapassar.
Continuamos e ver em tudo quanto é sítio, oficial ou não, afirmações de que este Paço foi iniciado em 1512, espera-se que todos e cada um reponham a verdade histórica. bem como o seu real nome, Paço da Ribeira de Muge, e não o malfadado restó Pórtico.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Distinção

No meio da destruição que todos os dias vemos acontecer no Paço Real  e na Ribeira de Muge, algo positivo acontece, que merece a distinção de "Os Verdes": o trabalho da Academia Itinerarium XIX - Ribeira de Muge, sobre o registo e a preservação histórico-cultural deste Paço e desta região.
Esta distinção, semelhante a muitas outras que atribuem, dá mais força à academia para ir em frente e lutar contra todas as ignorâncias que se se passeiam atrevidas nos corredores do poder.

O nosso obrigado a "Os Verdes"













sábado, 27 de setembro de 2014

Os 500 anos do acabamento da construção do Paço da Ribeira de Muge

Tendo-se iniciado em 1511, a Carta-Escritura do Paço é de 3 de Maio de 1511, este documento comprova que o Paço acabou de ser construído em 1514.
RETIRADOS
*1 palmo= 22 cm.


Diogo Roiz                                                                               Antão Fernandes

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Rei Preto

Com a devida vénia ao blog "Em busca do património", de Samuel Tomé.

É talvez a mais emblemática figura de Paço dos Negros, na qual se 

pode alicerçar a identidade desta comunidade. É a matriz comum 
às pessoas que aqui vivem, e que são descendentes dos escravos 
que para aqui vieram morar, miscigenados com os brancos. Foi já 
esta figura alvo de uma homenagem por Evangelista (2013), onde 
reúne em livro os factos históricos, as memórias orais e uma 
crítica social. Entrando no domínio da lenda e da cultura popular, 
há duas versões distintas da história do Rei Preto.

A primeira chega-nos pelo Conde da Atalaia, quando no final do séc. XIX 
dizia ao seu caseiro do paço que “este lugar não tem história daqui para 
trás, só daqui para a frente. Porque foi feito para abafar um escândalo 
muito grande”. Este escândalo estava ligado a um neto bastardo 
do rei, que seria filho de uma princesa sua filha e de um escravo 
negro que a houvera engravidado. Assim, o monarca mandou construir 
este paço, isolado no meio da charneca entre Almeirim e Coruche, 
para aqui ficar degradado o seu neto preto e o seu pai, porque 
se tinha de abafar o escândalo.

O Rei Preto nas comemorações dos 500 anos do Paço Real da Ribeira de Muge (2011)

 Uma outra versão diz-nos que nos escravos que para aqui vieram, 
veio um que era muito mau e muito ladino. Era filho do rei lá na sua 
terra, em África, e aqui tinha regalias especiais, devido a essa mesma 
filiação. Ficou de tal forma esta figura incrementada nas memórias 
populares, que é recorrente ser apelidado qualquer rapaz mais travesso 
e moreno como “rei preto”.

Tendo a lenda presente, e indo de encontro aos factos, não menciona 
a documentação da época nenhuma alusão a um neto bastardo do rei 
preto, nem tão pouco a um escravo que era filho de um rei em África. 
Contudo, encontramos várias alusões a negro que são tratados de 
forma preferencial em relação aos demais, e que muitas vezes 
nem têm o estatuto de escravos.

Num documento de 1528, citado e analisado por Vasconcellos (1926) 
e Evangelista (2011), é mencionado um escravo para além dos outros, 
que receberia à parte 2$580 (enquanto os demais tinham 42$650 
para cerca de 30 almas). Segundo Evangelista (2011), é possível 
que este outro fosse Fernão Frade, que mencionamos aqui. Ainda 
este mesmo documento alude a uma outra distinção: atribuiu ao 
almoxarife 2$580 para mantimento, vestir e calçar uma preta, com a 
qual casou o preto Diogo Lopes.

Seria algum destes três (Fernão Frade, Diogo Lopes ou a sua mulher), 
o famoso Rei Preto? Não o poderemos afirmar, contudo, é bem de 
salientar o seu tratamento preferencial, em relação aos demais. 
Por fim, convém salientar que Fernão Frade, como Evangelista (2011) 
menciona, é o preto responsável pela capela do Paço Real da 
Ribeira de Muge.

Bibliografia e fontes:
EVANGELISTA, Manuel (2004). Lendas da Ribeira de Muge. S/l: Edição 
Junta de Freguesia de Fazendas de Almeirim e Junta de Freguesia da Raposa.
EVANGELISTA, Manuel (2011). Paço dos Negros da Ribeira de Muge: 
A Tacubis Romana. S/l: Edição do autor.

EVANGELISTA, Manuel (2013). Contos do Rei Preto. S/l: Edição do autor.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Conde da Alemanha - Jesuina Vitória



Jesuína Vitória partiu... Fechou-se uma biblioteca.

.

Que o povo de Paço dos Negros saiba ser digno do legado cultural que esta Mulher da Ribeira de Muge nos deixou. Uma das mulheres que, até esta data, no nosso país mais tinha em memória a nossa genuína e rica cultura ancestral.

Até um dia minha Amiga. Um dia faremos a festa que te é devida.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

D. Sebastião, o Rei Preto e o Paço dos Negros

Como descendente, estudioso e herdeiro do nosso grande Rei Preto do Paço da Ribeira de Muge, e da sua tradição, do livro Contos do Rei Preto, ofereço aos que tiverem a paciência de ler, um pouco do que ficou escrito em documentos, e inscrito na memória do povo, dos tempos em que D. Sebastião frequentava este Paço, e estas charnecas, nas suas caçadas e fugas de si próprio. Daí à perda da independência foi um pequeno passo:

O Rei Preto, o Real Bando e Alcácer-Quibir


"Banco do rei Preto"

É da história que o rei D. Sebastião, estando em Almeirim, quando lhe acudiam uns ataques de merencoria, fugia à rainha D. Catarina, sua avó, e refugiava-se no Paço da Ribeira. Só ali, ou no Convento da Serra, julgava mitigar os seus tormentos.
Cultivando a destreza e valentia, o reizinho Desejado passava os dias em caçadas e montarias, sempre com o desígnio da peleja que idealizava travar com os infiéis.
Desde que aos doze anos, não completos, nas matas da Ribeira de Muge matara o seu primeiro javali, salvando de uma morte certa o seu aio D. Aleixo de Meneses, e cada vez mais bajulado o reizinho, por uma corte ociosa, servil e aduladora, julgava-se um predestinado; não escutando ninguém, escolhia passar os dias em caçadas e montarias nas charnecas dos Paços da Serra.
Quebrantado, os físicos não atalhavam as suas maleitas, os achaques febris eram constantes, lazerando enfermo recusava-se a comer; os cozinheiros porfiavam que comesse, mas o rei no seu ascetismo ia refugiar-se na capela de Santa Maria de Almeirim, na Real Capela de Nossa Senhora da Graça do Paço dos Negros, ou ia esconder-se do mundo, que jurava salvar, jejuando, junto dos frades do convento da Serra.
Era grande o sofrimento de alma do reizinho; não lhe bondavam as moléstias do corpo, sofria de um vergonhoso e secreto corrimento no órgão varonil, que, dizia-se à boca pequena, ter sido contraído ali junto dos negros, causado por uma insidiosa rameira, em noite de descomedida festança; mas sempre sonhando e cultivando o exercício físico, na teimosia de levar a gloriosa expedição às praças de Marrocos.
O Rei Preto sonhava voltar a África, mas não para fazer uma guerra que, à excepção do Real Bando de aduladores ninguém queria, pois era ver perecer o “Espírito de Almeirim”, e que anunciava mergulhar o país numa tragédia.
O Rei Preto não suportava estes bandos de louvaminheiros que enxameavam o Paço da Ribeira e o desrespeitavam; tratava-os de os beijaculos: Alteza sá mi, fio de reio, sá camarilha de beijaculo que só acá vem poro enchê pança. Um dia o seu aio, já velho de muitas cãs, doente, não pôde acompanhar o rei a fazer montaria. Quando o alienado reizinho, muito entusiasmado, corria atrás de um javardo, todos o deixaram, sozinho, a perseguir o animal por entre montes e vales. Quando o insensato Bastião desistiu da presa, sentiu a antecipação do seu Alcácer-Quibir: estava só, abandonado e perdido no meio de um matagal. Todo o seu Real Bando, que o que queria era encher a pança, nada fizera para encontrá-lo, apenas o Rei Preto, que não pertencia ao Bando Real, ficou para o apoiar. Eis o que desta caçada ficou registado pelo Padre Amador Rebelo:

«…Não tomando o caminho, ele e um fidalgo que com ele estava, subiram a um monte, e avistando um pastor com suas cabeças de gado, este lhes indicou o caminho para Almeirim, longe que estavam. Como apertava a fome com el-rei, era tarde e não tinham jantado (almoçado), disse para o pastor, tendes aí um pedaço de pão que me deis? O pastor respondeu que só um muito duro e preto, que não é para vossa mercê, que não conhecia el-rei. O rei pediu que o partisse com ele, e o comeu com tanto gosto, que disse depois que nunca em toda a sua vida comera coisa que melhor lhe soubesse.»

Sabendo-se que Alcácer-Quibir foi a morte do “Espírito de Almeirim”, ficou assim provado que os aduladores de todos os tempos são causa de morte dos que pretendem glorificar e, com eles, do próprio povo. Para o povo, mais realista e menos idealista, e que come o pão que o diabo amassou, foi apenas tirada a prova real dos aforismos populares: "Viva a fartura que a fome ninguém a atura", ou estoutro: "Não há nada como a fome para dar sabor ao pão às secas".


Nota: Não será verosímil a afirmação do Padre Amador Rebelo de que “este lhes indicou o caminho para Almeirim, longe que estavam” pois, geograficamente, estando na vertente da serra voltada ao Tejo, Almeirim (mais a fronteira Santarém), são próximas e visíveis em toda a extensão da cordilheira; estando em local ermo no interior da ribeira de Muge, ou dos Grous, ou outro, o local mais próximo onde poderiam encontrar apoio seria o seu Paço da Ribeira de Muge.

terça-feira, 24 de junho de 2014

S. João Baptista o primeiro patrono de Paço dos Negros.

Com a devida vénia ao blog Em busca do património, de Samuel Tomé, e numa homenagem ao

tão desconhecido primeiro patrono de Paço dos Negros.

As capelas no Paço Real da Ribeira de Muge – nos 500 anos da sua conclusão

Sendo hoje o dia de S. João Baptista, e sendo ele o patrono da capela do Paço Real da Ribeira 
de Muge, parece-nos ser o dia ideal para apresentar este tema no empreendimento anual que
fizemos sobre o paço. Tendo a religião uma forte presença no dia-a-dia do séc. XVI, e sendo os 
monarcas portugueses extremamente religiosos, faz todo o sentido que a construção de um
paço previsse a existência de um templo religioso.
  


São João Baptista, no altar-mor da Igreja Paroquial de Almeirim.
Escultura atribuída a Machado de Castro.

O primeiro capelão que temos conhecimento foi o frade franciscano da Ordem Terceira, Diogo
Pacheco, datando de 1532 o pedido ao papa por D. João III para que este servisse na “capelania
da capela dos meus paços da Ribeira de Muge”. Este pedido menciona que o rei estava 
de sua bondade bem enformado e por os vezinhos dali d’aredor estarem dele e de seu 
serviço contentes”. Poderá esta afirmação querer dizer que este religioso já exercia o cargo, 
tratando-se o pedido apenas de uma oficialização?

A 2 de setembro de 1551 foi nomeado para o cargo de capelão António Valente, clérigo de 
missa, residente em Santarém. Este teria de dizer missa na “capela dos Paços da ribeira 
de Muja” aos “domingos e festas do ano somente, e todas as outras missas que nela 
for obrigado a dizer, dirá nesta vila de Almeirim”. Não tinha este obrigação de viver no paço, 
e tinha como ordenado seis mil reais, três moios de trigo, um tonel de vinho e quatrocentos 
reais para palha. A nomeação de António Valente foi em substituição de Frei Pedro Mora, 
que falecera. Teria existido algum outro capelão entre este Frei Pedro Mora e Diogo Pacheco?



Edifício conhecido como “Escolas Velhas”, onde existiu a Igreja do Divino Espírito 
Santo da Ordem Terceira de S. Francisco.

Sabemos que em Almeirim existia, desde 1527, uma Igreja e um Hospital dedicados a Nossa 
Senhora da Conceição, ligados à Igreja do Divino Espírito Santo, sede da Ordem Terceira de 
Francisco. Não seria estranho se Diogo Pacheco estivesse ligado a esta instituição, 
sendo por isso normal a sua nomeação para capelão da capela do paço em 1532. Já 
Frei Pedro de Mora, é mencionado num recibo de uma tença em 1525 como prior do 
Convento de Nossa Senhora da Serra. Quanto a António Valente, podemos levantar 
algumas interrogações. Seria também um frade do Convento da Serra? Ou a ausência da 
sua designação como “frei”, relevaria que pertencia ao clero regular? Com efeito, a sua nomeação 
diz que era “clérigo de missa, morador da vila de Santarém”, não aludindo a qualquer casa 
monástica ou conventual.

O que é facto é que a partir do dia de S. João Baptista (24 de junho) de 1560, passava a capela
do Paço Real da Ribeira de Muge para os frades. O Alvará menciona que tal acontece por 
falecimento do capelão, António Valente. Passavam estes a receber o mesmo valor em 
géneros e dinheiro que recebia António Valente, mediante uma certidão do almoxarife do paço,
em como efetuavam os serviços para os quais eram nomeados. Estabelece-se a partir 
daqui uma relação entre estas duas casas, que falamos aqui.



Pórtico do Convento da Serra, único vestígio arquitetónico subsistente 
desta casa conventual no lugar onde ela se ergueu.

Os documentos encontrados por Evangelista (2011) aludem a duas capelas neste espaço. Uma, 
de invocação de S. João Baptista (mencionada em 1758 e 1764) e a Real Capela de Nossa 
Senhora da Graça (aludida em 1749). O autor aventa que a primeira capela seria de utilização 
pública, para as celebrações religiosas e que aí assistiriam não só os residentes no paço 
como também as populações que vivessem nas cercanias (o que pode ser corroborado pelo 
facto de o pedido de súplica para Diogo Pacheco mencionar que a população estava 
contente com ele). A outra seria de uso privativo dos monarcas, e as cerimónias aí realizadas 
seriam de validos próximos a estes. Noutros documentos aparece apenas a referência à 
“capela [ou ermida]de Paço dos Negros” ou então “Real Capela de Paço dos Negros”, sendo que, 
com a ausência de invocação, se deduz que a adjetivação de “real” se refere à Capela de Nossa 
Senhora da Graça.

Tendo presente esta linha de pensamento, pode inferir-se que o edifício que chegou aos nossos 
dias no complexo do paço será a Capela de S. João Baptista, pela feição que tem, 
marcadamente pública, isto é, aberta a todos. Ficou registada a memória de ainda ter 
funcionado, ainda que esporadicamente, em ofícios religiosos, até à segunda metade do 
séc. XIX. Desta forma, podemos levantar a questão: onde ficaria a Real Capela de Nossa 
Senhora da Graça? Dela já se perdeu a memória. Sendo uma capela de cariz privativo e 
particular (quem sabe, até pouco mais que um pequeno aposento adornado com um 
oratório, ainda que ricamente decorado), ficaria na parte residencial do paço, 
precisamente aquela que desapareceu e que aludimos aqui



Reconstituição do interior do paço, com o enquadramento da capela.
Aguarela de Maria Nélia Castelo.

A Capela de São João Baptista é um edifício de uma só nave, com telhado de duas águas. 
Estaria inserida no alpendre existente na frente daquela parte do paço, que arrancando da parede 
do pórtico, faria um L no pátio. Na fachada principal tem uma janela gradeada, alinhada com 
a porta. A porta tem a soleira em cantaria, ainda que sem decorações de relevo, ou pelo menos 
estas não chegaram aos nossos dias. O edifício tem ainda à direita da porta um contraforte 
arredondado. Teria sido adicionado aquando da demolição do alpendre, para reforço 
da estabilidade do edifício? Antes de ter sido rebocada, era visível acima da porta um buraco. 
Há memórias que acima da porta da capela existia uma pomba em pedra. Seria uma invocação 
do Espírito Santo, nesta capela? Ou seria o buraco simplesmente originário do arranque de uma 
trave do alpendre?



Interior da Capela de S. João Baptista, em 2009.

 Exterior da capela, em 2006. É visível o buraco por cima da porta.

A capela foi dessacralizada no final do séc. XIX ou início do séc. XX. Sabemos que teve anos 
a fio a função de celeiro do moinho, sendo que, por essa razão, levou entaipada a porta da frente 
e passou a ser utilizada a porta das traseiras. Não sabemos se essa mesma porta foi 
apenas rasgada nessa altura, ou se já existia. Parece contudo estranho que, sendo rasgada 
nessa altura, levasse uma abóbada em tijoleira como tem. De estranhar igualmente o 
nicho existente junto a esta porta, entaipado, mas abobadado.



Capela em 2002, onde é visível a porta entaipada. 



Fachada traseira da capela, em 2006. Porta possivelmente rasgada no início 
do séc. XX. É visível o nicho entaipado à direita.



Nicho entaipado, após ter sido rebocado.

Bibliografia
(1532). Carta de D. João III ao Doutor Brás Neto. Pag. 716-720, 2013. XI, 8-19.
CASTELO, Maria Nélia (2012). O Palácio Manuelino da Ribeira de Muge, trabalho de âmbito académico 
do seminário em Itinerários e Paradigmas Monumentais.
CLÁUDIO, António (2005). “As Escolas Velhas”, Conhecer Almeirim, vol. 2. S/l: Ed. Câmara Municipal 
de Almeirim.
EVANGELISTA, Manuel (2011). Paço dos Negros da Ribeira de Muge: A Tacubis Romana. S/l: 
Edição do autor.