sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Até 1975 esta região da Ribeira de Muge pertencia à diocese e patriarcado de Lisboa. O dia da S. Vicente foi até aos anos 50 do século 20, dia santo de guarda. Com direito a filhoses e mesa melhorada e um grandioso baile. 

Muitas coisas ficaram da cultura desse tempo.

A quem não jejuava na véspera de S. Vicente:


S. Vicente não perdoa a são nem a doente, nem a mulher parida de três dias.


Começava neste dia o Entrudo e as cacadas.


- No dia de S. Vicente, já se engana toda a gente! diziam.



Os jovens iam de noite, de porta em porta. Lançavam pedras quentes para dentro das casas, colocavam bonecos de palha encostados às portas, posicionavam-se embrulhados em lençóis a meter medo às pessoas.



Até à quaresma era esta a linguagem, rude:


- Queres ir e mais eu?


- Aonde?


- Beijar o cu ao conde.






- Já que me enganaste, com toda a delicadeza, vai bardamerda mais a tu’ esperteza.





quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Conversa entre amigos e lançamento de livro.

Conversa entre amigos sobre o Natal da nossa terra e as nossas memórias 

E ainda «Versos - o Romanceiro da Ribeira de Muge»"


É este o mote para a última iniciativa de 2015 da Academia Itinerarium XIV. A realizar no próximo dia 20 de dezembro, às 15.00h, no Paço Real da Ribeira de Muge (Paço dos Negros - Almeirim). Um pouco ao estilo de uma conversa sobre "o antigamente", como se passava o Natal aqui, algumas estórias caricatas que aconteciam no Dia de Natal, entrelaçada com poesia e narrativas recolhidas junto das pessoas que aqui viveram e vivem. Algumas destas serão contadas pelos próprios protagonistas ou autores. 

Mas como o espírito natalício impele a que haja um dar e um receber, pretende-se que quem nos visite fique não só a conhecer o Natal da Ribeira de Muge, mas também que nos dê a conhecer como era o seu Natal antigamente e como é hoje. Assim, o convite é que venham também partilhar o vosso Natal com todos nós. 

Dentro deste espírito de informalidade e de conversa, será apresentado o livro "Versos - O Romanceiro da Ribeira de Muge", da autoria de Manuel Evangelista, que reúne poesia e narrativas populares recolhidas pelo autor ao longo de vários anos que se dedicou ( e continua a dedicar) a estudar a cultura popular da Ribeira de Muge. 

A Academia Itinerarium XIV é constituída por um grupo de cidadãos de Paço dos Negros, e tem como objetivo a promoção da divulgação do património, história e etnografia deste local. 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

"Versos" O Romanceiro da Ribeira de Muge.

No prelo. A sair antes do Natal. Uma eterna gratidão às mulheres que no-lo deram.

Índice
IN MEMORIAM  7
AS PRIMEIRAS PESQUISAS     9
ROMANCEIRO DA RIBEIRA DE MUGE, UM LEGADO CULTURAL     12
HISTÓRIA, TRANSMISSÃO DO ROMANCEIRO, E TRANSMISSÃO DA NOTÍCIA COMO ARTE   19
A DESCOBERTA DE ASPECTOS GENUÍNOS DA CULTURA LOCAL. O “PRIVILÉGIO DE REGRESSAR À IDADE MÉDIA”.       22
ESTRUTURAÇÃO E OBJECTIVOS DESTE ESTUDO  25
OS MESTRES   27
A CATEGORIZAÇÃO DO ROMANCEIRO     29
AGRADECIMENTOS      30

PARTE I – ROMANCES VELHOS  31
A NAU CATRINETA     34
DONA INFANTA (A BELA INFANTA, ETC.)     35
O ANEL DE SETE PEDRAS (A DONA INFANTA, BELA INFANTA, RICOLINA, ETC.) – versão 2  36
O LENCINHO (O ANEL DE OIRO, DONA INFANTA, BELA INFANTA, ETC.) versão 3    38
CLARALINDA (A BELA INFANTA) – versão 4  39
A NOIVA (CONDE DIRLOS, O REGRESSO DO NAVEGANTE, A NOIVA ARRAIANA, MENINA DA MANTILHA NOVA, CONDE FLORES, ETC.)  40
A NOIVA – versão 2  42
NOIVA – versão 3    43
A NOIVA – versão 4  44
A CONQUISTA DE LISBOA      45
D. MARQUES (D. MARCOS, D. LEONOR, A DONZELA QUE VAI À GUERRA, ETC.)       46
D. MARQUES – versão 2      49
JULIANA (O VENENO DE MORIANA, D. AUSENIA, D. JORGE, ETC.)   51
D. INÊS (BRAVO FRANCO, D. FRANCO, GALLO FRANCO, RICO FRANCO, ETC.) 52
MARIANA (CONDE DE MONTALVAR, CONDE CLAROS, ALBANINHA, D. LISARDA, ETC.)   54
MARIANA – versão 2  56
SILVANA (DELGADINHA, SILVANINHA, ETC.)  58
ADELINA (SILVANA, SILVANINHA, ETC.) – versão 2 60
CONDE DA ALEMANHA (CONDE ALARCOS, CONDE ALBERTO, ETC.)      61
CONDE DA ALEMANHA – Versão 2      63
LAURALINDA (CLARA LINDA, FILOMENA, D. ALDA, ETC.)     64
FREI JOÃO (A MORENA, FILOMENA, MORENINHA, ETC.)       65
FREI JOÃO – versão 2       67
O SOLDADINHO NOVO   68
O SOLDADINHO (BERNAL FRANCÊS, A AMADA DEFUNTA, A APARIÇÃO, ETC.) – versão 2      69
O SOLDADINHO – versão 3    70
A PASTORINHA 71
SANTA IRIA (IRIA A FIDALGA, SANTA HELENA, ETC) 72
DONA IRIA – versão 2       74
O CEGO (MINETA, O FALSO CEGO, ROMANCE DE ANINHAS, ETC.) – versão 3 75
O CEGO PANTOMINEIRO (O FALSO CEGO, O CEGO, O CEGUINHO, ETC.) – versão 4   76
A CONDESSA (A VISCONDESSA, CONDESSA DE ARAGÃO, ETC.)  77

ROMANCEIRO ANTIGO   79
QUINTA-FEIRA DE ASCENSÃO   81
ROSALINA     82
ROSALINA – versão 2 83
ROSALINA – versão 3 84
ROSALINA – versão 4 84
ONDE VAIS TU CRIANCINHA?   85
ONDE VAIS TU CRIANCINHA? – versão 2     86
A MULHER SOBERBA (ROMANCE DO HOMEM RICO, A MULHER AVARENTA, ETC.)  87
NUNCA TE DAREI PERDÃO      88
NUNCA TE DAREI PERDÃO – versão 2  88
PERDÃO EMÍLIA 89
UM SINAL NO CÉU     90
ROSITA (MORTE DE PARTO, BRANCA ROSA, ETC.)     90
A ROSA (BRANCA ROSA, ETC.) – versão 2   91
POMBA SEM FEL, (BELA AURORA A DOENTE, ROMANCE DOS DOIS NAMORADOS, ETC.)   93
SILVA DO VALE 94
UMA ALMA DO OUTRO MUNDO    95
CERTO DIA FUI À CAÇA (LINDO CANÁRIO, A FILHA DO REI, ETC.)  96
Ó VIRGINA Ó VIRGININHA     97
O BAILE DA MALDIÇÃO 99
ALBERTINA ERA A FILHA DO REI      100

ROMANCEIRO RELIGIOSO (SACROS E DEVOTOS) 101
O BOM JESUS DA AURORA      103
JUBILOSO SANTO ANTÓNIO     104
ORAÇÃO DE S. LÁZARO 105
ORAÇÃO DE S. CUSTÓDIO (DO ANJO CUSTÓDIO) 105
QUINTA-FEIRA DE ENDOENÇAS  107
VALHA-ME DEUS (A DEVOTA DA ERMIDA)      108
Ó MINHA TRISTE NOITE ESCURA (ORAÇÃO DO DIA DO JUIZO)  110
MAGNIFA DE NOSSA SENHORA   111
ORAÇÃO DAS SETE SEXTAS-FEIRAS     112
ORAÇÃO ÀS ALMAS     113
AS DOZE EXCELÊNCIAS (versão 1)    114
AS DOZE EXCELÊNCIAS* (versão 2)   115
Ó BOM JESUS  116
SANTA BÁRBARA E S. JEROLMO 116
“VERSO” DE SANTO ANTÓNIO   117
O SINAL DO CRISTÃO  118

PARTE II – ROMANCEIRO LOCAL       119
ANTÓNIO DOMINGOS    121
Ó MILITAR Ó GALUCHO 122
MANEL BRAZ   123
DAVID CRAVINAS (JOÃO DO GUARDA)   125
O AIVECA     126
MANUEL FAUSTINO     127
INÁCIO DO MOINHO    128
HUMBERTO PADEIRO    129
FLORENTINA   130
FLAUZINO RABECA     131
DEONILDE TACHA      132
FOI NA BARRAGEM DA PIPA    134
ZÉ LIMA FAZENDEIRO  135
VERSO DA …-… 136
FOI NUM RANCHO DE FAZENDEIRAS     137
DIA DA ESPIGA 139
MARIA DA CONCEIÇÃO  140
O CEGONHO    141
ALDEIA DE MARIANOS  142
ADEUS MINHA QUERIDA AMADA  142
ZÉ MOIRA     143
O LADRÃO DA COMPORTA       144
OS DE ALMEIRIM JÁ LEVARAM QUE CONTAR    144
O ACIDENTE DO TURIM 146

PARTE III – “VERSOS” VINDOS DE OUTRAS REGIÕES DO PAÍS 147
O SÁBIO E O BARQUEIRO      151
POMBINHO CORREIO    151
ANA ROBERTA  152
O ROUBO      154
MARIA DA PAZ 155
MULHER DA VIDA      156
Ó CRIADA TU MAL SABES (A CRIADA E O PATRÃO)    157
AURORA DA CONCEIÇÃO 159
“VERSO” DE UM CÃO FIEL     160
A ROSINHA COSTUREIRA       160
AUGUSTO NÃO PENSASTE BEM   163
ANTÓNIO VEIO DE VIAGEM     163
UM RAPAZ QUE ERA TROPA     164
LINDA ISAURA 165
A DONA MARIA ALICE  166
MARIA ADELINA DE ALDEGAS   166
NUMA ALDEIA ALENTEJANA     167
Ó MANUEL, MANUEL    168
OH “EMILHA”  169
A TECEDEIRA VIOLINDA       170
UM RAPAZ DE QUINZE ANOS    171
UM GAROTITO DE DEZ ANOS    172
MARIA ALBERTINA     173
A PERPÉTUA DA CALÇADA      174
ALICE ANGÉLICA      174
PEQUENA ABANDONADA  175
MENINA QUE VAI PASSANDO    176
O MEU VIZINHO ALBANO       176
JOAQUIM DA PORTELA  177
BALDONINHA   177
LUCIANA      178
CARMA  179
“VERSO” DA ÍNDIA    180
ALBERTINA    180
A ROSITA E O FERNANDO      181
ADEUS MINHA MÃE QUERIDA    182
NOVE DE ABRIL MEU AMOR - BATALHA DE LA LYS     183
AS 48 ESTAÇÕES      184
A MORTE DE D. PEDRO V      185
UM PRETO GRANDE ESTEIO     186
NUMA ALDEIA UMA POBREZINHA 186
UM VELHO DE BOM TEMPO      187
ERA UMA VEZ UM MARRECO     188
O CABREIRITO (OU MENINA QUE ESTÁS À JANELA, ETC.)     188
O NOIVADO    190
A FORMIGA E A NEVE  191

BIBLIOGRAFIA 193

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Valorizar o nosso património.

Com a devida vénia ao blogue de Samuel Tomé:

Samuel Tomé levou neste fim de semana o Moinho do Fidalgo ao III Encontro Nacional de Molinologia
Moinhos de Portugal com Samuel Tome
12 h
Samuel José Rodrigues Tomé
Moinho do Fidalgo - História, Tecnologia e valorização de um engenho centenário
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Evangelista Manuel

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Evangelista Manuel Um trabalho hercúleo o teu, sem dúvida. Na foto pode ver-se a capela de S. João Baptista, e, em baixo, o estado do moinho do Fidalgo, em Paço dos Negros, Almeirim, em 2003. Simplesmente não se vê, coberto de canas que está. Parabéns Samuel. Continua. E parabéns à Academia que tem lutado para que o nosso património seja reabilitado.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O senso comum como ciência, ou puro embuste ao mais alto nível?

Muito se tem discutido sobre a presença de marcos miliários junto a Alpiarça. Outros dizem entre Almeirim e Alpiarça. Os mais ousados decerto bem informados, decerto bebem do fino, talvez escondendo algo ao mundo científico, avançam com a frase: “recentemente identificados”). já que foram descobertos recentemente, eu gostaria de ver os ditos. Será isto senso comum como ciência, ou puro embuste ao mais alto nível?

Conferir o doc. abaixo:
…os marcos miliários recentemente identificados, pertencentes à via romana que ligava Lisboa a Mérida…
Brasão de Almeirim
Brasão de Almeirim
[GEOGRAFIA  E LOCALIZAÇÃO
Almeirim é uma cidade portuguesa pertencente ao Distrito de Santarém, com cerca de 10 520 habitantes.
Desde 2002 que está integrada na região estatística (NUTS II) do Alentejo e na sub-região estatística (NUTS III) da Lezíria do Tejo; continua, no entanto, a fazer parte da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, que manteve a designação da antiga NUTS II com o mesmo nome.
Pertencia ainda à antiga província do Ribatejo, hoje porém sem qualquer significado político-administrativo, mas constante nos discursos de auto e hetero-identificação.
É sede de um município com 221,80 km² de área e 22 766 habitantes (2006), subdividido em 4 freguesias.
O município é limitado a norte pelo município de Alpiarça, a leste e nordeste pela Chamusca, a sul por Coruche e Salvaterra de Magos, a oeste pelo Cartaxo e a noroeste por Santarém.]

Eis o que nos diz André de Resende no seu Livro “Antiguidades da Lusitânia”, O LIVRO ONDE TODOS DIZEM BEBER. Tradução de Raul M. Rosado Fernandes:
…Por outro lado, o caminho a partir de Santarém, sobranceiro ao ópido de Almeirim, era conduzido pelas nascentes do rio Alpiarça. [no original, per Alpiarsae fluvii initia ducebatur]. Em qualquer lado se vêm grosseiros fragmentos de colunas, das quais nada havia a transcrever.

Depois, apesar de ter encontrado no caminho quatro colunas caídas, apenas pude ler numa delas o seguinte:
«O imperador César Gaio Júlio vero, nobre general vencedor cinco vezes, com o poder tribunício, cônsul, procônsul, Pai da Pátria…».

Mil passos depois estão tombadas três colunas:
«O imperador César, divino Trajano Augusto, Germânico, Pontífice Máximo, duas vezes com o poder tribunício, restaurou onze».
A segunda estava partida e apenas tinha no fim estas letras:
«Restaurador da cidade de Roma».
[Na terceira]:
«Ao Imperador César Cláudio Tácito, Pio, Feliz, Invicto, Augusto, Máximo, no segundo poder tribunício, cônsul, procônsul…»

Mil passos depois e estavam três colunas, duas caídas, com letras desgastadas pelo tempo, e uma de pé que tem o seguinte:
«Ao Imperador César Marco Cláudio Tácito, Pio, Invencível, Augusto, Pontífice Máximo, no segundo poder tribunício, cônsul, Pai da Pátria…»

Mil passos a seguir estão duas colunas tombadas e no fim de uma delas apenas podem ser lidas as palavras:
«Cônsul pela quarta vez, procônsul, refez».

Mil passos adiante, junto à encruzilhada a que chamam Mestas, estão quatro colunas caídas. Três têm inscrições inutilizadas, mas numa lê-se:
«O Imperador César Gaio Marco Júlio Vero Maximiano, Pio, Feliz, Invencível, Augusto, Pontífice Máximo, Pai da Pátria, no segundo poder tribunício, cônsul, Pai da Pátria, ters vezes com o poder tribunício, cônsul Germânico Máximo, Dácico Máximo, e Gaio Júlio Vero Máximo, nobilíssimo César, Príncipe da Juventude, Germânico Máximo, Dácico Máximo, Sarmático Máximo, quarto filho do imperador César Gaio Marco Júlio Vero Maximino, Pio, Feliz, Augusto, Germânico Máximo, Dácico Máximo, Sarmático Máximo, Valentíssimo».

Do original, livro terceiro, eis a transcrição da última coluna:


Vemos que Resende localiza os miliários encontrados, NUM TROÇO DE 5 MILHAS, à distância de uma milha uns dos outros, nas nascentes "do Alpiarça", e o último em Mestas, [concelho de Abrantes].

Perguntamos: Valerá a pena ter medo de discutir estes temas, continuando iludir a ciência e a laborar em possíveis erros, e omitindo a verdade? Em troca de quê?


* negritos do autor.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Vamos apoiar um projecto

Eis um projecto que deveria ser imediatamente estudado e colocada a possibilidade de a Câmara de Almeirim apoiar, quiçá cedendo os seus terrenos (da Junta de Fazendas), mediante estudo, pois trata-se de uma oportunidade de desenvolver toda esta região da Ribeira de Muge. Existem 500 ha de terrenos que queriam delapidar com construção maciça de uma prisão, e invasão desinteressante. Penso que este será um projecto que trará diariamente muito turismo cultural. (Não conheço o Joaquim Fitas, mas como li que tem 10 ha de terreno, o que são 10 ha para um projecto deste interesse concelhio? Penso que deve ser a câmara a contactá-lo, de modo a fazer este estudo, se ele estiver interessado, claro, e não ficar à espera que as pessoas se sujeitem com pedintes que não são, mas cidadãos com direitos e deveres).

Dromedários, mochos, cangurus, falcões, gazelas, zebras, cisnes, veados. Esta é apenas uma pequena...
OMIRANTE.PT

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Preservar e valorizar

Carta Aberta ao Executivo da Câmara Municipal de Almeirim

Sobre a Conservação do Paço Real da Ribeira de Muge

Exmo. Sr. Presidente e Exmos. Srs. Vereadores,

A Academia Itinerarium XIV nasceu no seio de um grupo de cidadãos do lugar de Paço dos Negros, com o intuito de recolher, estudar, dignificar e promover a cultura da Ribeira de Muge. Por cultura da Ribeira de Muge entendemos não a da ribeira em si, mas a cultura popular das pessoas que vivem neste local. Por outro lado, incluímos em igual medidas no âmbito da nossa atividade tanto domínio histórico-patrimonial como também social e ambiental. É neste contexto que surge o Paço Real da Ribeira de Muge entrecruzado com a atividade da academia. Com efeito, temos não só estudado este espaço, como também ele tem sido o lugar nobre do desenvolvimento de algumas das nossas iniciativas.
Este local, que não devemos esquecer que é em grande parte propriedade do município, esteve durante vários anos votado ao abandono. Com efeito, há alguns anos atrás, um grupo de cidadãos de Paço dos Negros tomou a iniciativa de proceder à limpeza de entulhos que aqui existiam. Alguns desses mesmos cidadãos vêm mais tarde a integrar a academia.
Apesar de algumas obras já efetuadas, verificamos que há alguns elementos que estão em sério risco de conservação. Compreendemos que a altura não é melhor, do ponto de vista financeiro, para o empreendimento de um projeto de recuperação e valorização que este espaço merece. Contudo, vimos pelo presente meio manifestar a nossa preocupação por alguns elementos, que se encontram em estado de degradação ou em sério risco de conservação. A nosso ver, terão de ser empreendidas num curto-médio espaço de tempo algumas intervenções, a fim de que não só não se degrade mais o espaço, como também conseguir preservá-lo para o futuro, quando existir oportunidade de o valorizar.
Desta forma, cremos que importa assinalar os seguintes elementos:
  1. Portal: necessita de uma limpeza profunda e cuidada, uma vez que na parte superior deste foi-se desenvolvendo uma flora invasiva. Por outro lado, a própria estabilidade está em risco, assim como os revestimentos. Com efeito, são visíveis vários descarnamentos de rebocos na parede do portal, assim como nos próprios merlões. Chamamos à atenção que nestes revestimentos deverão ser utilizadas argamassas próprias, e não cimento portland (são visíveis na capela os efeitos nefastos da sua utilização).
  2. Páteo: a zona do antigo paço real que desapareceu (que forma um L entre a capela e o edifício onde fica a porta das casas-de-banho) foi pela academia devidamente fotografada e estudada, tendo inclusivamente sido produzida uma planta e uma maqueta do paço real. Foram, há alguns anos atrás, comprados e colocados por nós uma série de postes de madeira, para evitar que esta zona com vários pavimentos de tijoleira, arranques de paredes e cantarias de portas fosse danificada. Com o tempo, todos eles desapareceram. Verificamos que recentemente foram colocados outros. Saudamos essa atitude. Contudo, não só pela nossa experiência, como tendo presente que naquele espaço há moradores, está uma associação local e o próprio local é um ponto de atração de visitantes ocasionais, gostaríamos de sensibilizar o executivo municipal para os seguintes aspetos:
  • Apesar de vedada parcialmente, a zona em questão continua a ter acesso a veículos pela parte junto à vala, pelo que seria importante também vedar esta parte com pilaretes ou uma cerca. Sobre isto, fazemos nota que na nossa última iniciativa de 27 de junho estavam trilhos de tratores marcados no terreno, junto à vala e em cima da zona de tijoleiras.
  • Pela fragilidade do local, torna-se a nosso ver essencial tomar algumas atitudes no que diz respeito à conservação deste. Assim, e para termos a certeza que este bem poderá estar devidamente salvaguardado para quando num futuro mais ou menos longínquo for possível valoriza-lo e estudá-lo com mais profundidade, afigurar-se-ia como essencial colocar uma camada de areia (com cerca de 10 cm), seguida por um tapete geotêxtil e uma camada de saibro (com cerca de 15 cm). Isto levaria a que se pudesse circular a pé sem problemas sobre o lugar, e este deixaria de estar exposto às condições atmosféricas, que têm tido consequências visíveis sobre o mesmo. Permitiria este procedimento ser facilmente removido quando houver condições para valorizar o protegido.
  • Contudo, a interdição da circulação de veículos automóveis dentro do complexo será, no nosso entender, uma das medidas mais urgentes a tomar, e que melhor poderá abonar para uma conservação preventiva. Esta situação poderia ser tomada com a simples colocação de um pilarete a meio da entrada, no portal.
  1. Ponte pedonal de acesso ao moinho, sobre a Vala do Pomar: é visível a degradação desta estrutura, sendo a sua consolidação um imperativo. Para a conservar a limpeza da vala, neste troço, deve ser feita manualmente e não com recurso a maquinarias que degradam o espaço.
  2. Ponte a jusante, no limite da propriedade do município: esta ponte, que inicialmente era pedonal e tinha guardas laterais, que foram destruídas para permitir a passagem de maquinaria para o arroz, encontra-se também ela em visível estado de degradação. Para a sua conservação deveriam ser reforçados os pilares, o pavimento e ser interdita a passagem de viaturas. Relembramos que no passado as maquinarias agrícolas entravam nos canteiros de arroz pela estrada que dá acesso ao Arneiro da Volta, e aí poderá voltar a ser construído um acesso.  Verificar que na zona adjacente à direita e a jusante da ponte se encontram partes das anteparas (guardas laterais) que poderiam ser recolocadas e servir de modelo para a reconstrução das anteparas em falta.
A Academia Itinerarium XIV termina, certa de ter tocado na sensibilidade de V. Exs. para este assunto. Manifesta ainda a sua total disponibilidade para, em conjunto com o município, poder encontrar soluções que preservem e valorizem, mas também dinamizem o Paço Real da Ribeira de Muge.
O Secretariado da Academia Itinerarium XIV
Aquilino Manuel Pratas Fidalgo
Lucília Ferreira Cipriano Evangelista
Manuel da Conceição Evangelista
Maria Nélia Silva Castelo dos Reis
Samuel José Rodrigues Tomé
Esta carta será entregue individualmente a cada um dos membros do executivo municipal, e será dado conhecimento aos Grupos Municipais, ao Sr. Presidente da Assembleia Municipal, ao Executivo da Junta de Freguesia de Fazendas de Almeirim, Assembleia de Freguesia de Fazendas de Almeirim, Imprensa, rede de contactos da academia e publicação do blog da Academia Itinerarium XIV.