Nos anos 30 e 40 quando no Casal dos Gagos se falava francês e se ouviam as novidades dos teatros de Lisboa.
Das memórias e do livro de Manuela dos Gagos
Clique para ouvir: O Careca
Nos anos 30 e 40 quando no Casal dos Gagos se falava francês e se ouviam as novidades dos teatros de Lisboa.
Das memórias e do livro de Manuela dos Gagos
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Por Manuela dos Gagos, nascida em 32, uma mulher cheia de sabedoria e bondade.
Clique para ouvir: Baguinho baguinho baguinho https://dl.dropbox.com/u/4453889/Baguinho%20baguinho%20baguinho.mp3
Como atrás foi dito, Henrique Leonor Pina, em Os Papéis de S. Roque”, citando uns escritos do século XVI, escritos por Simão Vinagre Rodrigues, de Almeirim, que de moço de estrebaria, excepcionalmente admitido na escola do Paço de Almeirim, em criança, a pedido de seu avô, estudou em Évora, chegou a bacharel, e que reconhecera nas peças de Mestre Gil as pessoas e as paisagens de Almeirim, referindo-se ao negros que habitavam o Paço da Ribeira de Muge, diz: «eram escravos guinéus, vindos do reino de Benim. Viviam em casa de pau a pique, com paredes de caniços, tapadas de barro, e telhados de espadana e junco.»
Nos mesmos “Papéis”, diz Henrique Leonor Pina: Gil Vicente muitas vezes representou em Almeirim. Entre 1525 e 1527 foi muito fecunda a sua obra, um período em que permaneceu grande parte do seu tempo nesta vila real, devido a febres. Foi nestes anos que escreveu as três peças em que põe o negro Furunando a falar. Ao ler as suas obras [de Gil Vicente] reconhece Simão relações directas com Almeirim, embora Gil Vicente as finja noutros lugares. Almeirim reconhecia-se nas personagens e conhecia bem as paisagens criadas por Mestre Gil. Falava com os negros da Atela, e foi um frequentador do Paço da Ribeira de Muge, que bem conhecia, por ali se deslocar para falar com os negros, os que estavam em Almeirim já não falam bem língua de preto, dos quais retirava o falar para as suas obras.
Foram estes os anos de ouro dos negros no Paço da Ribeira. Teria sido na capela do Paço da Ribeira de Muge que encontrou um preto, um tal Furunando, o documentado Fernando Frade, o lendário negro que invoca Jesus Cristo, refilão,e que invoca ser fidalgo, mais qualquer outro, por ser um dos quarenta filhos do rei do Benim.
Teria sido pois, ao serviço do rei, na capela do Paço da Ribeira de Muge, que Gil Vicente encontrou um preto, de nome Fernando, figura de tal forma marcante que se tornou o seu Furunando; negro de certo modo revoltado, a quem pediu que lhe rezasse o Padre-nosso e a Salve Rainha*. Quem melhor poderia encontrar Mestre Gil, para lhe rezar o seu latim, que um negro refilão, com alguma preparação para tal, quiçá presunção, que andava na capela?
Como nos confirma Henrique Leonor Pina: Pediu-lhe então Mestre Gil que rezasse o Padre-nosso e a Salve Rainha; encontramos em o Clérigo da Beira linguagem e orações, cujas reminiscências ainda encontramos nas memórias das mulheres locais, como por exemplo na “lenda dos gatos endemoninhados”, “Valha-me Nosso Senhor Jesus Cristo”, que uma nossa informante, Manuela dos Gagos, nos revelara, em 2003, que diz ter ouvido da boca de Guilhermina Moreira [1848-1944], antiga dona do Paço.
São reveladores os termos usados, no seu latim, saídos da boca de Furunando, um verdadeiro hino à vida no Paço da Ribeira de Muge: (sável, égua, vinagre, balde, quarta, cordas, convento, fruta, pias):
Sabe a Regina mathoa misericoroda/nutra dun cego sável/até que vamos a oxulo filho degoa/alto soso peamos já frentes/vinagre quele quebraram em balde/ja ergo a quarta nossa/ha ylhos tue busca cordas/oculos nosso convento/e geju com muyta fruta ventre tu/j/tremens ja pias/Seoro Santa Maria.
* - Salve Regina, mater misericodiae Vita, du cedo et spes nostra, salve! Ad te clamamus, exules filii Evae. Ad te suspiramus gementes et flentes in hac lacrymarum valle. Eia ergo, advocata nostra illos tuos misericordos óculos ad nos converte. Et Jesum, benedictum fructum ventis Tui nobis, post hoc exilium, ostende. O clemens, o pia! o Dulce virgo Maria.
«Pedro Matela cavaleiro da Casa d’el-rei nosso senhor e seu contador na comarca dos escravos desta mui nobre e sempre leal vila de Santarém e da vila de Abrantes, corregedor perpétuo da vila de Almeirim, vos mando a vós Henrique Nunes, almoxarife do almoxarifado desta dita vila de Santarém, que qualquer dinheiro que tiverdes do ano passado de mil quinhentos e vinte e nove, deis e pagues a Simão Roiz, boticário, os mil duzentos e dez reais contidos nesta carta de Mestre Luís, os quais mil duzentos e dez reais foram de mezinhas para os ditos escravos do dito senhor, que lhe deu por meus mandados a qual carta se fez perante mim, e se montou nos ditos proveitos os ditos mil duzentos e dez reais, e portanto vos mando que lhes deis e pagueis e por este, e com seu conhecimento vos serão levados em conta para sempre sem duvida que nele punhais. Feito na dita vila de Santarém ao primeiro dia do mês de Agosto, António Ribeiro que tem carrego de escrivão dos escravos o fez de mil quinhentos e trinta anos, os quais mil duzentos e dez reais lhe dareis de vossa renda do ano de 1528, e este para que conste manda el-rei nosso senhor por seu alvará que é em meu poder que eu mande curar os ditos escravos que adoecerem e mande pagar os mestres e mezinhas de qualquer dinheiro que houver neste almoxarifado de Santarém e o dito António Ribeiro o escreveu. Pedro Matella».
No mesmo documento o bacharel confirma o recebimento do dinheiro, para pagamento despesa feita com o tratamento dos escravos da ribeira de Muge. (cf. anexo 39-A):
«O bacharel Mestre Luís, físico dos escravos desta vila, que tenho cargo de curar os escravos del-rei nosso senhor, da Ribeira de Muge, digo que é verdade que eu contei umas mezinhas a Simão Roiz de certas receitas que ele deu de sua botica para os ditos escravos, as quais mezinhas foram mandadas dar por o dito contador e assinadas por ele e por o físico, e ao fazer desta conta foram todos perante ele nos quais se montaram 1210 reais, e para lhe serem pagos lhe dei este por mim assinado e feito em Santarém ao primeiro dia de Agosto de mil 515 anos.»Assinatura indecifrada
Eu Simão Roiz, boticário, digo que é verdade que eu recebi de Henrique Nunes almoxarife estes mil e duzentos e dez reais neste mandado atrás escrito e por ser verdade que os assim recebi assinei este conhecimento por mim feito e assinado. Feito aos xiii dias do mês de Agosto mil 530 anos. Simão Roiz
Um excerto do livro Paço dos Negros da Ribeira de Muge-A Tacubis Romana
87-Turma escolar de 1952-53. Maria de Jesus Borrego. (10-12-1952)
A escola em Paço dos Negros, segundo os nossos informantes, foi inaugurada no ano de 1948, com uma turma. Era docente a professora Maria Forjó Casimiro. Em 1949 havia duas turmas. Eram docentes Maria Antónia Almeida e Maria de Jesus Borrego. Esta, a residir na localidade, dava aulas nocturnas a adultos. Foram estas as primeiras professoras a dar aulas em Paço dos Negros em regime de escolaridade obrigatória até à terceira classe. Anteriormente, desde os anos 30, quem quisesse frequentar a Escola tinha que se deslocar a Fazendas de Almeirim.
Não sendo obrigatório, poucas crianças, e quase exclusivamente os rapazes, começaram a frequentar estas aulas. Quer pela falta de meios, mentalidade dos pais, também eles iletrados, quer pelas distâncias que as crianças tinham de percorrer a pé, apenas uma minoria frequentou, ainda que por curtos e por vezes irregulares períodos, a escola em Fazendas de Almeirim.
87 A – Diploma de aluno entrado na escola aos 12 anos.
Alguns pais, tentando que seus filhos aprendessem as primeiras letras, pagavam, por vezes, a uns indivíduos instruídos que, quantas vezes por razões políticas, de algum modo marginais à sociedade, na terra apareciam esporadicamente e, a troco de uns precários tostões, ensinavam as crianças que frequentavam a escola nos intervalos dos trabalhos agrícolas.
87 B – Turma Escolar da “Senhora Almeida”. 1951-52