segunda-feira, 10 de junho de 2013

À atenção da Câmara de Almeirim

 

Ao escutar hoje o discurso do senhor Presidente da República, na defesa do nosso património histórico-cultural, e pensar no que poderia ser feito para valorizar e rentabilizar este monumento, claro que senti vergonha. Vergonha pelo modo como um monumento único da história de Portugal, o Paço da Ribeira de Muge, construído para ser um espaço de lazer da Corte, no ano de 1511, o período de maior glória da História Nacional, tem sido tão maltratado pela Câmara de Almeirim.

Que pelo menos fique registada a indignação de um cidadão que conhece a história deste monumento.

 

Estado a que chegou o Paço em 2004.

vista actual do largo do paço 9-2004

 

Estaleiro de obras em cima do monumento histórico (2009).

estaleiro em cima do Paço

Vista actual do interior do pátio.paço para classificação 005

Maqueta do paço(interior).

maqueta 1

terça-feira, 28 de maio de 2013

Academia da Ribeira de Muge - Folclore genuíno

Paço dos Negros orgulha-se de ter guardado das suas raízes culturais, do século XVI?, o seu ex-libris, esta "Dança do Fidalgo", genuína, uma pérola que, segundo opiniões avalizadas, pode competir a nível mundial, com outras danças folclóricas e étnicas.

Dança do Fidalgo

(Interpretação: Jerónimo Baptista)
(clique para ouvir)

domingo, 14 de abril de 2013

Contos do Rei Preto

Finalmente, está quase a chegar o livro que nos traz de volta o Negro fundador de Paço dos Negros.


Do livro de Horas de D. Manuel I.

Índice
Preâmbulo 7
O Rei Preto, D. Manuel e a cama dos gatos pretos 9
O Rei Preto e os gatos do Diabo 10
Gil Vicente e o Rei Preto 13
O Rei Preto e os negros bem martelados 16
O Rei Preto, o Real Bando e Alcácer-Quibir 18
D. Sebastião, o Rei Preto e a Corte dos bajuladores 20
O Rei Preto, a penitência e a Ponte do Bispo 21
O Rei Preto e os negros que queriam matar o moinho 22
O Rei Preto e os escravos que se julgavam mortos 23
A revolta do Rei Preto, ou o rei que ia nu 25
O Rei Preto e as argolas de atar as bestas dos fidalgos 30
O Rei Preto, as Justiças e a Fonte D’el-rei 32
O Rei Preto, o Negro boçal e a prenha 36
O Rei Preto e a branca 38
O Rei Preto, o Frade e o bacio da ‘Vó velha 41
O Rei Preto e o pretinho que gostava de molhar a sopa 44
O Rei Preto e o Capelão que media o tempo ao cesto 46
O Rei Preto, a Rainha e as botas novas 49
O Rei Preto, o Cigano e o Santo António 51
O Rei Preto e a pescaria 53
O Rei Preto, o Fidalgo arruinado e o beija-mão da rainha 54
O Rei Preto e o Moinho dos Frades 56
O Rei Preto e os carvoeiros 59
O Rei Preto, o Cura, o cuco e a gaga 61
O Rei Preto, a Rainha, e as galinhas alcoviteiras 63
O Rei Preto e o fidalgote malparido – ou a greve no Paço 65
Outros Contos do Paço 67
De como nasceu o Paço da Ribeira de Muge 69
Tomé, o conde e as condessinhas 70
A Preta Maria e o príncipe 71
Lenda do Negro Jack da Raposa 74
De como medrou a nobre fidalguia da Realenga Vila 78
Os Doze Passos das Negras 80
Lenda da Fonte dos Tanques 82
O segredo da Capela do Paço 84
O cabreiro, a rainha e o trem 85
O casamento da escrava Isabel da Ribeira 87
O ermitão do Alto Frade 90
As éguas do Muge e os Montes da Borra de Ferro 91
O segredo do Paço 94
Temos os fidalgos no Paço! 97
Memórias orais e Bibliografia 98

domingo, 24 de março de 2013

Contos do rei Preto e outros contos do Paço

Um excerto do Prefácio do livro, que tenta desvendar a figura do mítico Rei Preto de Paço dos Negros.

Paço dos Negros é terra antiga. Terra com memória: Que outro paço coetâneo, Lisboa, Sintra, Évora, Almeirim, se não o Paço da Ribeira de Muge, de aspecto chão e vivências simples, daria primado aos negros, de modo a que estes tivessem trato e honra, e ousadia, de figurar em retrato de D. Manuel I, em refeição frugal, em ambiente rústico? (cf. Página 10); Que outro paço recebeu nome dos próprios negros que o ergueram e habitaram?; Que outro paço guardou em memória, durante cinco séculos, o hábito de D. Manuel de andar pelas cozinhas, o gosto que tinha pelos gatos?; Que outro paço guardou em memória um negro supersticioso que batia nos gatos e clamava por Jesus Cristo?; Que outro paço guardou em memória um negro autoritário, mau, refilão, sábio, anedótico, supersticioso, provocador, que, revelando a sua proveniência geo-histórica, o Benim, tanto marcou a terra, que até hoje tem dado titulatura aos rapazes da terra?; Que outro paço guardou em memória a menina branca que com um preto tem um diálogo, que em tudo coincide que as falas do negro em Gil Vicente? (cf. Página 35); Que outro paço tem um negro ao qual Gil Vicente dá o nome de Furunando, se não o histórico e documentado Fernando Frade, homem preto da capela de S. João Baptista do Paço da Ribeira de Muge?; Que outro paço guardou em memória um negro ao qual Gil Vicente dá voz como tendo vindo de livre vontade conhecer Portugal, se não o comprovado Fernão Frade, um baptizado do Benim, filho de rei, que andava na capela que, por ser livre, tivera a honra de trazer a rainha D. Catarina, mi bem lá de Tordesilha, e ao qual o rei recomenda que não esqueçam de pagar o soldo?; Que outro paço tem um negro ao qual Gil Vicente pede para lhe rezar o Padre-Nosso, a Salve-Rainha, se não um negro cujo metier é andar na capela e que recita: …Papa na Roma cansera…?;Que outro paço tem um negro do qual Gil Vicente extrai um Padre-nosso, uma Salve-rainha em latim, cujo exótico vocabulário nos leva a uma viagem pelo ambiente rústico do paço da Ribeira de Muge? (cf. Página 15); Que outro paço mantém vivo o espírito crítico e mordaz de Gil Vicente; Que outro paço teve um “Rei”, preto, que marcou para sempre a idiossincrasia do povo, ao ponto de quando alguém queria meter medo a uma criança, dizia: “está lá o rei preto e agarra-te”, quando pretendia acabar um conto, declarava: “…não me lembro é o outro”; ao que o interlocutor respondia: “É o Rei Preto…”. (cf. Página 37).

capa rei preto final

quarta-feira, 13 de março de 2013

Folclore e Folclorice

Com a devida vénia a Mafalda Lopes da Costa, “Lugares Comuns” da Antena 1, do dia 11 De Março:

(clique para ouvir)

http://rsspod.rtp.pt/podcasts/at1/1303/2378574_130855-1303092358.mp3

Nesta rubrica vemos quão deformado está o conceito de Folclore. Palavra que nasceu para dar toda a dignidade à cultura popular, está hoje em Portugal, transformada em algo “excêntrico, berrante, para dar nas vistas”, algo sem valor, digo eu.

Também esta semana, na rádio, um estudioso da cultura do povo, referia-se à folclorice dos nossos ranchos, como “a tragédia que se abateu sobre a cultura popular”. E diz bem, uma verdadeira tragédia, que tanto tem prejudicado a nossa genuína cultura popular. Referia-se o estudioso, à estridência musical, e à deformação dos colegiais trajes e até das danças rurais “circenses”, com culottes ou sem culottes, inventados pelo salazarismo. Não há pachorra.

Anos 70.

anos 70 recitas d. alda

domingo, 10 de março de 2013

Fernando Frade, o rei Preto?

Será que o Rei Preto é apenas uma Lenda de Paço dos Negros da ribeira de Muge?

CC, 2, mac 163, fol.23

Pedro Matela cavaleiro da Casa d’el-rei nosso senhor e seu contador na comarca dos escravos desta mui nobre e sempre leal vila de Santarém e da vila de Abrantes, corregedor perpétuo da vila de Almeirim, vos mando a vós Simão Lopes, recebedor das sisas da távola de Marvila desta dita vila de Santarém, que compres cinco alqueires de azeite e os entregares a Fernando Frade, homem preto da Ribeira de Muge, para andarem na capela dos ditos Paços da dita Ribeira, que por ordenança o dito senhor manda que lhe sejam entregues...

Assinatura de Fernão Frade - o Rei Preto

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Drepanociptose – (Ciência pouco científica)

Erros como os que vamos verificar, porque sistemáticos, têm vindo a contribuir para a ignorância sobre o Paço Real da Ribeira de Muge. E a ignorância é a mãe de todas as destruições deste e doutros paços, na qual os políticos, e outros, desde sempre se têm apoiado.

Encontrámos uma uma brochura elaborada por equipa do Hospital de Santarém, sem data, como conclusão de um estudo sobre a drepanociptose, o qual contém um rol de incorrecções relativamente ao o Paço dos Negros da Ribeira de Muge. Porque o documento parece empenhado em afirmar tudo quanto é contrário à realidade histórica, passemos a analisar o que o mesmo diz. Logo a abrir, em Notícia Histórica,

citamos a página 7:

«A presença de raça negra nos concelhos de Almeirim e Coruche não pode fixar-se antes do século XIX, ao contrário do que ainda defende uma tradição sem fundamento.

Nos períodos em que a Corte viveu em Almeirim, correspondendo aos anos 1500 a 1578, admite-se que alguns escravos a tivessem seguido para o desporto de caça que se praticava na região, mas os casos a apontar são esporádicos.

Por tal motivo, não se confirma a tradição de que houve no sítio de Paço dos Negros, uma fixação africana de onde derivou o topónimo de Paço dos Negros. Esse local da freguesia da Raposa e concelho de Almeirim nunca é citado nos registos paroquiais, nem em relatos de viagens do tempo, como sendo o de negros ali residentes.

Existe ali um palácio sem dúvida senhorial, pelo brasão do século XVI que encima a portaria e que presumimos ter sido a residência de caça do fidalgo Fernão Soares, pagem do livro de D. João III, falecido em 1544 e que jaz no vizinho convento de Nossa Senhora da Serra.

Como Paço dos Negros, essa moradia hoje desprovida do traço original, só no século XIX passou a ser conhecida.

No século XIX, sim, viveram ali grupos de africanos que os governos da Regeneração fizeram vir para a metrópole afim de os adaptar a vários tipos de vida agrícola.»

Na página 12: «Em 1890 chegaram centenas de pretos de Angola a Lisboa, destinados a trabalhos agrícolas. Foram distribuídos por várias regiões entre elas a de Santarém…muitos deles foram levados certamente para Ameirm e Coruche – onde já havia outros desde 1850-para a cultura do arroz. Foram eles os ascendentes de muitos habitantes que hoje vivem nas Fazendas de Almeirim, Raposa, Lamarosa, e localidades próximas. Admitido gerações de 20 a 25 anos, temos a concluir que essas populações se radicam no Ribatejo há 130-110 anos, o que corresponde a 4 ou 5 gerações.»

Na página 23: «Embora Paço dos Negros – nome de povoação – estivesse na origem da escolha da área a estudar e dados históricos nos pudessem confirmar a existência de negros nesta mesma região, foi-nos negado o conhecimento de antecedentes de raça negra em todos as crianças com traço drepanocitário.»

Com todo o imenso respeito que possamos ter pelos nomes que constam da Ficha Técnica, não podemos deixar de repor a verdade histórica neste caso, ao qual, se nos aspectos técnicos e da temática da “doença” em estudo não temos nada a dizer, embora pensemos que não será a mesma coisa terem as populações estudadas 500 anos de contacto com gentes africanas, e 100 anos, como são as premissas em que se baseia o referido estudo e nos querem fazer crer:

1 – A presença de populações africanas não é uma tradição sem fundamento. Temos acesso a largas dezenas de documentos que nos dizem quando vieram (logo a partir de 1511), quem os pediu, quem os enviou, quantos eram, a quem pertenciam, o que recebiam para seu mantimento, etc.

2 - Este Paço é mencionado em larguíssimas dezenas de documentos das diversas chancelarias reais, sempre referido como “os meus Paços da Ribeira de Muge”, a partir de 1685 “os meus Paços dos Negros da Ribeira de Muge”. É o caso da nomeação real dos 14 almoxarifes do Paço.

O próprio documento, de 1511, 22 de Abril, em que o contador mor de Santarém dá conta ao rei D. Manuel do estado dos terrenos, seus donos e escrituras, e do que é necessário para o “aviamento das obras”. nesta, pede logo ao rei que lhe mande uma dúzia de escravos. Escravos que recebeu. Em 1529 eram já 30.

3 – Não se trata de uma mera casa senhorial. D. Manuel I, D. Sebastião, D. Catarina, aqui gostavam de se recrear. O caso do pagem Fernão Soares, com moradia neste paço, esse sim, é pura especulação, pois não nos aparece referenciado em nenhum documento referente a este paço.

4 - A cartografia, que já no século XVII referencia o paço como o “Paço da Serra”, “Palácios”, e o “Vale de Negros” nesta região.

5 - O facto de não aparecer mencionado nos registos Paroquiais, dever-se-á a erros de compreensão do próprio questionário, pelo pároco de Raposa, como se verifica pela forma desordenada, repetitiva, incompleta e ilógica da ordenação das respostas, que tem como consequência ser considerado, em 1758, pelo visitador do patriarcado: «João Rodrigues Delgado, não é mal procedido, pouco letrado, e não é muito vigilante em ser perfeito pároco…», e os negros já estarem assimilados, e ou dispersos pelos casais em redor, como o prova o funeral de um escravo, Pedro Tinoco, na igreja de Raposa, em 1719, que morava no moinho da Várzea Redonda.

6 - A afirmação de que o paço só passou a ser conhecido a partir do século XIX, trata-se de uma outra ideia preconcebida, pois foi precisamente a partir do ano de 1834, data da extinção dos conventos, com o fim da missão dos frades dominicanos de Nossa Senhora da Serra de ao Paço dos Negros virem dizer missa, de que temos registos até esta data, até ao limiar de 1900, com a venda do paço, estando o Paço na posse da Casa de Atalaia/Tancos, e após esta venda, cerca de 1880-1919, e sua ruína, que a história deste Paço e lugar, é mais apagada e nebulosa.

A concluir, devo dizer que tenho interrogado pessoas que nasceram no início do século XX, mesmo finais do século XIX, (minha mãe nasceu em 1913, meu avô nasceu em 1864, convivi com ele 12 anos), pessoas que há 20 anos interroguei, e na altura tinham 100 anos (por esse motivo as interroguei), e ninguém tem memória da existência de pessoas negras, mulatas ou pardas, na região. O que não aconteceria se porventura tivessem vindo em 1890.

Sinteticamente embora, espero que tenha ficado claro este erro. Das premissas e das conclusões do documento não nos pronunciamos. Só esperamos que a discrepância temporal, não obste a considerar válido o resultado dos estudos. Um problema deles técnicos de saúde.