sábado, 31 de outubro de 2009

Vale João Viegas

O mais antigo documento de que temos conhecimento referenciando concretamente o Vale João Viegas, vale que atravessa toda a aldeia de Paço dos Negros, e que dá nome a uma rua, é de 1518. Contudo, pensamos poder estar este nome ligado a um tal João Viegas, cavaleiro, que no século XIII-XIV, ao tempo do rei D. Dinis, adquiriu em Santarém e seu termo, um vasto património fundiário.





«A Antão Fernandes almoxarife dos paços da ribeira de muja licença para que ele possa fazer umas moendas no Vale de João de Viegas e mercê de um chão aí junto para pomar este para sempre em fatiota. Rei.


D. Manuel, a quantos esta nossa carta virem, fazemos saber por querendo nós fazer graça e mercê a Antão Fernandes, nosso almoxarife dos Paços da Ribeira de Muja temos por bem e nos praz que ele possa fazer uns moinhos no Vale de João Viegas para moverem com as águas do dito vale os quais moinhos fará pelo dito vale acima dos quais Paços no lugar onde se melhor possam fazer abrindo sua levada e enxaguadoiro e açude e bem assim nos praz que mande fazer os ditos moinhos no dito vale, lhe fazemos mercê de um chão para nele fazer horta ou pomar ou que lhe bem vier o qual chão terá cento e vinte braças de comprido e de largo quinze dos quais moinhos e chão lhe fazemos mercê livremente enfiteuta com suas entradas e saídas e serventias logradouros pelos lugares onde não fizer dano sem deles nos pagar foro algum. Porém mandamos etc. em forma. Dada em a nossa vila de Almeirim aos vinte e três dias do mês de Janeiro Gaspar Gomes o fez de 1518 anos.»

trecho do Vale João Viegas actualmente entregue ao "deus-dará"



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Paço dos Negros e a sua ligação ao Convento de Nossa Senhora da Serra



Eis um pouco da história religiosa da Ribeira de Muge. A ribeira desconhecida e ignorada e tão cheia de história. A ribeira dos moinhos seis vezes centenários e das belas e encantadoras paisagens. A ribeira que espera que a preservem enquanto é tempo:

Em 1560, por alvará real, a capela de S. João Baptista do Paço da Ribeira de Muge, ficou a cargo da Ordem dos Frades Dominicanos do Convento da Serra, conforme um extenso documento em Confirmações Gerais, livro 6, fol.312v-313v:

«Eu el-rei faço saber aos que este alvará de confirmação virem que por parte do prior e frades do mosteiro de Nossa Senhora da Serra da Ordem de S. Domingos, que está junto à vila de Almeirim, me foi apresentado em alvará do senhor rei D. Sebastião, meu sobrinho, que santa glória haja, passado por sua chancelaria, com três apostilhas, nele postas, de que o traslado de tudo é o seguinte: Eu el-rei faço saber aos que este alvará virem, que por a capela dos Paços da Ribeira de Muja estar ora vaga, por falecimento de António Valente, [António Valente que fora nomeado em 2-09-1551 ao tempo das longas estadias da rainha D. Catarina em Almeirim] …/…e serão obrigados a dizer na dita capela quatro missas por semana, e demais obrigações da dita capela…

O qual pagamento lhes assim farão de dia de S. João Baptista que passou deste ano presente de 560 em diante…/… confirmada em Lisboa a 20 de Fevereiro de 1597.»


Pelos séculos fora, vários actos foram acontecendo, tal como: «Em 1658 o Prior e Religiosos do Convento de NªSª da Serra recebem por alvará, 25$000 réis para comprar um macho, para nele irem os religiosos do Mosteiro à Capela de Paços de Muja dizer as missas Domingos e dias Santos.» R. G. de M., Vários Reis, liv. 1, fl. 192v.

Vinte e um anos após a nomeação do almoxarife Paulo Soares da Mota II, datada de 1769, foi extinto o almoxarifado do Paço dos Negros da Ribeira de Muge e doada a propriedade, da Ribeira até à Serra, a D. António Luís de Meneses da Casa de Atalaia e Tancos em 1790.

Todavia, após a saída da Fazenda Real, João Evaristo de Sá e Seixas, era almoxarife da Capela de S. João Baptista do Paço dos Negros da Ribeira de Muge. Tinha de ordenado 40.000 réis. Um documento de 4 de Julho de 1801 reza: “Este paço foi dado em Exmo. Marquês de Tancos e se conserva o ordenado ao dito almoxarife por ter a seu cargo a dita capela que existe».

Alguns registos existentes no magro espólio do extinto Convento de Nossa Senhora da Serra, existente na T.Tombo, confirmam ainda o relacionamento entre Convento da Serra e este almoxarife da Capela do Paço, depois da saída da Fazenda Real:

«Recebeu do guisamento da Capela dos Passos de 1808 e 1809, 12$000;
Hum brinde para o Almoxarife de Almeirim passar as certidões da Capela dos Paços, $440 réis, em Março de 1826;
Despesa de uma lembrança para o Almoxarife passar as certidões da Capela, 4$800, em Dezembro de 1826;
Despesa de uma mulher para varrer a Capela dos Passos nos 9 meses, $480 réis, em Junho de 1828;
Despesa para o novo selo de testação, que pagou o almoxarife da Capela dos Paços, $060 réis, em Maio de 1828;
Despesa de uma capa de oliado para se levar à Capela dos Passos, em Fevereiro de 1829.
Despesa de pagamento do reconhecimento de dois atestados do Almoxarife dos Passos, $080 réis, Maio de 1832».

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Medo e caciquismo

(Para memória futura)

M'ESPANTO ÀS VEZES, OUTRAS M'AVERGONHO
Sá de Miranda




Confesso que não me espanto nada. Vindo de onde veio, no dia em que veio, foi um convite ao regresso a um passado de mentira, de delação e de medo.

Mas que me avergonho, avergonho.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O Mapa de Paço dos Negros


Mapa que foi elaborado na conclusão do aforamento e venda dos terrenos do Paço dos Negros. Foi executado por Paul Pinto de Araujo e Henrique Soares Rodrigues, no ano de 1933. É pertença da Família de Manuel Francisco Fidalgo. O original, de onde foi feita esta cópia está à guarda de um seu bisneto.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Paço da Ribeira de Muge - Da Aristocracia para o Povo

Estes documentos de algum modo completam as mudanças de titular por que passou o Paço da Ribeira de Muge, desde o século XVI até ao inicio do século XX.


RETIRADOS


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Às vezes interrogo-me: porquê tanto empenho em destruir? Não se vê dos responsáveis políticos que governam a Câmara de Almeirim um acto que indicie conhecimento, respeito, intenção de preservação do nosso património histórico. Quando pensam estar a fazer alguma coisa, é manhosamente, falaciosamente, anunciado com trombetas em cima de um palanque. Será isto a ambição dos medíocres?


Antes não havia conhecimento de documentação sobre este Paço, era como se não existisse. Paço que foi grande, como grandes foram os seus frequentadores no século XVI.

E agora, a “barbárie” de Almeirim, faz de conta, ainda, que não existem, acelerando a destruição, porquê?

Ver as fotos do último post.



Construindo a História de Paço dos Negros – A saída da Fazenda Real


Certamente Frazão de Vasconcelos ao nos legar, em 1926, o primeiro estudo conhecido sobre Paço dos Negros, “O Paço dos Negros da Ribeira de Muge e os seus Almoxarifes”, como homem de cultura e de ciência, foi com a intenção de que os vindouros viessem a pegar nas suas investigações e continuassem a Obra. É isso que modestamente estamos a fazer.


Diz o Vasconcelos na página 4: «Não podemos averiguar quando a propriedade entrou na Fazenda Real. Talvez que anteriormente a El-Rei D. Manuel. Também não sabemos ao certo quando dela saiu. O último almoxarife, de que temos noticia, foi nomeado em 1769 [Paulo Soares da Mota]. Deve portanto, ter sido posteriormente a esta data que o Paço dos Negros passou para a ilustre casa dos condes da Atalaia. Por que forma? Ignoramo-la, nem a sabe o Sr., marquês de Tancos, representante daquela nobilíssima família, que correspondendo amavelmente ao nosso pedido de informações, nos disse ter havido em tempos uma troca de propriedades da sua casa por outras da Casa Real. Teria, nessa Ocasião, a Casa Real cedido o seu Paço dos Negros?»

No final, página 12: «Depois deste Paulo Soares da Mota não encontrámos outra nomeação de almoxarife do Paço dos Negros. Teria sido o último? Teria sido no seu tempo que o Paço e coutada saíram da fazenda real? Como já o dissemos na nota da página 4, não o podemos averiguar.»



Trecho de documento.




Baseado num carta de doação, de Março de 1790, da rainha D. Maria I a D. António Luís de Meneses. R.G.M D. Maria I, livro 20, e em um traslado de documentos originais, guardados na Torre do Tombo, A. D. de S., Juízo do Tombo nº 24, Livro dos Registos dos Tombos dos Bens da Real Coroa de Santarém, podemos desfazer a dúvida do Historiador e confirmar a data exacta da saída da Fazenda Real, do Paço dos Negros e terrenos confinantes, o local onde se efectivou e os seus intervenientes. Desfazem-se assim, ainda, dúvidas sobre a efectividade do exercício, durante 21 anos, do último Almoxarife, de nomeação real, Paulo Soares da Mota. Não só foi efectiva, como foi o próprio que deu posse ao novo titular na pessoa do seu representante:


«Auto de posse dos Paços dos Negros da Ribeira de Muja. Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos e noventa, aos trinta dias do mês de Agosto do dito ano, neste Paço chamado dos Negros, termo da vila de Santarém, eu escrivão dos Paços da vila de Almeirim e Paço dos Negros, em companhia do almoxarife Paulo Soares da Mota, vim, sendo presente Manuel da Câmara procurador do Exmo. Marquês de Tancos D. António Luís de Meneses, o mesmo em cumprimento da carta de doação retro e por bem da sua procuração que apresentou, tomou posse mansa e pacificamente sem contradição de pessoa alguma do dito Paço dos Negros a sua pertença, abrindo portas fechando portas, tirando telhas e pondo telhas, e passeando por ele, deitando terra ao ar, arrancando ramos de ervas e árvores, dizendo tomava posse do mesmo paço e terreno por Sua Majestade haver feito deles perpétua doação ao Exmo. seu constituinte, o qual parte de Nascente José Henriques Figueira [actual Gagos], e de Norte com águas vertentes da Serra, e de Poente com D. Teresa, e de Sul com a Madre de Água e fazendas da mesma D. Teresa, e o dito almoxarife lhe houve por dada a posse do dito Paço e seu terreno o aval e corporal civil e natural, para o Exmo. Marquês de Tancos o ter e haver na forma da carta retro e de tudo mandei fazer este auto que assinei com o procurador apossado, e comigo Francisco Tridente de Faria Monteiro que o escreveu e assinou. Paulo Soares da Mota. Francisco Tridente de Faria Monteiro. Manuel da Câmara a folhas sessenta e seis verso. Pagou cento e vinte réis de selo.

Santarém, cinco de Outubro de mil oitocentos e treze.»


De salientar o curioso ritual de posse exercido pelo senhor Procurador Manuel da Câmara: abrindo portas fechando portas, tirando telhas e pondo telhas, e passeando por ele, deitando terra ao ar, arrancando ramos de ervas e árvore…



domingo, 25 de outubro de 2009

Bárbaros

Ia a passar junto ao Paço da Ribeira de Muge. Parei, ao rever tão degradante e criminoso espectáculo.








Fui para casa. E



Sem nenhuma razão,


O dia pôs a sua capa de tristeza;


E parece um senhor da Inquisição


Com hereges à sua mesa.


Veio-me à memória  Miguel Torga.