domingo, 24 de março de 2013

Contos do rei Preto e outros contos do Paço

Um excerto do Prefácio do livro, que tenta desvendar a figura do mítico Rei Preto de Paço dos Negros.

Paço dos Negros é terra antiga. Terra com memória: Que outro paço coetâneo, Lisboa, Sintra, Évora, Almeirim, se não o Paço da Ribeira de Muge, de aspecto chão e vivências simples, daria primado aos negros, de modo a que estes tivessem trato e honra, e ousadia, de figurar em retrato de D. Manuel I, em refeição frugal, em ambiente rústico? (cf. Página 10); Que outro paço recebeu nome dos próprios negros que o ergueram e habitaram?; Que outro paço guardou em memória, durante cinco séculos, o hábito de D. Manuel de andar pelas cozinhas, o gosto que tinha pelos gatos?; Que outro paço guardou em memória um negro supersticioso que batia nos gatos e clamava por Jesus Cristo?; Que outro paço guardou em memória um negro autoritário, mau, refilão, sábio, anedótico, supersticioso, provocador, que, revelando a sua proveniência geo-histórica, o Benim, tanto marcou a terra, que até hoje tem dado titulatura aos rapazes da terra?; Que outro paço guardou em memória a menina branca que com um preto tem um diálogo, que em tudo coincide que as falas do negro em Gil Vicente? (cf. Página 35); Que outro paço tem um negro ao qual Gil Vicente dá o nome de Furunando, se não o histórico e documentado Fernando Frade, homem preto da capela de S. João Baptista do Paço da Ribeira de Muge?; Que outro paço guardou em memória um negro ao qual Gil Vicente dá voz como tendo vindo de livre vontade conhecer Portugal, se não o comprovado Fernão Frade, um baptizado do Benim, filho de rei, que andava na capela que, por ser livre, tivera a honra de trazer a rainha D. Catarina, mi bem lá de Tordesilha, e ao qual o rei recomenda que não esqueçam de pagar o soldo?; Que outro paço tem um negro ao qual Gil Vicente pede para lhe rezar o Padre-Nosso, a Salve-Rainha, se não um negro cujo metier é andar na capela e que recita: …Papa na Roma cansera…?;Que outro paço tem um negro do qual Gil Vicente extrai um Padre-nosso, uma Salve-rainha em latim, cujo exótico vocabulário nos leva a uma viagem pelo ambiente rústico do paço da Ribeira de Muge? (cf. Página 15); Que outro paço mantém vivo o espírito crítico e mordaz de Gil Vicente; Que outro paço teve um “Rei”, preto, que marcou para sempre a idiossincrasia do povo, ao ponto de quando alguém queria meter medo a uma criança, dizia: “está lá o rei preto e agarra-te”, quando pretendia acabar um conto, declarava: “…não me lembro é o outro”; ao que o interlocutor respondia: “É o Rei Preto…”. (cf. Página 37).

capa rei preto final

quarta-feira, 13 de março de 2013

Folclore e Folclorice

Com a devida vénia a Mafalda Lopes da Costa, “Lugares Comuns” da Antena 1, do dia 11 De Março:

(clique para ouvir)

http://rsspod.rtp.pt/podcasts/at1/1303/2378574_130855-1303092358.mp3

Nesta rubrica vemos quão deformado está o conceito de Folclore. Palavra que nasceu para dar toda a dignidade à cultura popular, está hoje em Portugal, transformada em algo “excêntrico, berrante, para dar nas vistas”, algo sem valor, digo eu.

Também esta semana, na rádio, um estudioso da cultura do povo, referia-se à folclorice dos nossos ranchos, como “a tragédia que se abateu sobre a cultura popular”. E diz bem, uma verdadeira tragédia, que tanto tem prejudicado a nossa genuína cultura popular. Referia-se o estudioso, à estridência musical, e à deformação dos colegiais trajes e até das danças rurais “circenses”, com culottes ou sem culottes, inventados pelo salazarismo. Não há pachorra.

Anos 70.

anos 70 recitas d. alda

domingo, 10 de março de 2013

Fernando Frade, o rei Preto?

Será que o Rei Preto é apenas uma Lenda de Paço dos Negros da ribeira de Muge?

CC, 2, mac 163, fol.23

Pedro Matela cavaleiro da Casa d’el-rei nosso senhor e seu contador na comarca dos escravos desta mui nobre e sempre leal vila de Santarém e da vila de Abrantes, corregedor perpétuo da vila de Almeirim, vos mando a vós Simão Lopes, recebedor das sisas da távola de Marvila desta dita vila de Santarém, que compres cinco alqueires de azeite e os entregares a Fernando Frade, homem preto da Ribeira de Muge, para andarem na capela dos ditos Paços da dita Ribeira, que por ordenança o dito senhor manda que lhe sejam entregues...

Assinatura de Fernão Frade - o Rei Preto